Cavalos Marinhos

Naquele dia ele demorou a acordar. A fome matinal era um signo desconhecido. Comeu nada. Dentro de si crescia um pequeno monstro que antes não o deixava acordar e, agora, o impedia de engolir qualquer coisa a não ser as palavras e os gritos de rancor do outro, que não escondia a inconformidade de não ser compreendido. As palavras e gritos rancorosos rasgavam seus ouvidos, ecoando forte e lento o rasgar. Para aguentar a dor abria os poros da pele: escutava a razão da infelicidade do outro pelo tato. Tateava aquela tarde com os olhos ardendo de choro. Tateava um suspiro de maresia no meio da poeira de rancor que se transferira do outro a ele. Em vão. A poeira já era produto interno, grudado às paredes e meios fios que ligavam ele ao outro. Por segundos quis chorar, mas seus vasos lacrimais estavam por demais ressecados com a seca voz do outro. Os dois eram silêncio tinindo o bater de portas que se propunham a abrir. Calados por fora tinham que aguentar os gritos lançados pelos olhares de um ao outro. O menino jorrava um grito triste, miúdo, qualquer coisa como o entre dos dias e noites arroxeados. Azul era o raio de grito que lhe pulava do olhar. O menino se perdia no seu próprio silêncio. Ouvia um tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiin forte no fundo de si. Lembrou de quando mergulhou pela primeira vez a cabeça nas águas geladas da Queda do Itiquira. Doía mais que os ouvidos. Doía a dificuldade de ser dois em um. Doía ser cruel consigo mesmo e persistir no carregar da tensão de viver um dia de cada vez. Ele

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Aflita

Fig03.1
A espera
Na noite fria
Causa ânsia no amanhecer do dia.
A falta do que fazer faz arder os olhos
Mais que adjetivá-los,
Enverbecê-los:
Arder.
O claro do dia não aparece
Pra dar notícia
E a gente esquece
Que não tem sono
Que acabe com a insônia
De esperar
E só nos resta
Esperar
Acontece.

estrela do mar

Fig02.1

Acendeu dois cigarros pra não morrer de dor. Não suportava a sensação de ódio que carregava consigo. Ela estava ansiosa pelo que nunca iria acontecer. Então, sugou a fumaça dos cigarros com força a ponto de sentir a garganta gritar. Seus olhos ardiam e ela tentava segurar toda e qualquer tosse que ousasse surgir, mas não conseguia.

Os cigarros fizeram com que seus pulmões doessem. A cada tossida, uma faca rasgando o centro do peito. “Vou explodir”, pensou. Sentia a cabeça como um balão de ar sendo soprado até o ponto exato da explosão.

Tragou outra vez.

Quis sair de casa e andar ao não destino, mas já eram duas horas da manhã do outro dia e ela morre de medo do silêncio da madrugada. Desejou, mais que tudo, estar submersa. Ela queria sentir o esforço de seus pulmões lutando contra a pressão subaquática do Lago Paranoá. No fundo, queria mesmo ser um mito, uma história contada de mãe para filha, para filho.

Tinha nojo de se relacionar sexualmente com homens, porque sentia o membro rijo do outro como uma serpente áspera, venenosa e bruta. Sobretudo odiava a imagem do caralho ereto, mas tinha grande fascínio pela frouxidão melancólica do membro flácido.

Acendeu mais um cigarro. Seu quarto cheirava a flores e ervas queimadas. Sentia-se superior aos outros, mística demais para existir.

Saiu de casa sem provocar nenhum tipo de ruído e foi direto ao encontro do seu mar, que não era salgado, mas que dava uma ardência nos olhos.

Ela sempre chorava quando em frente ao mar.

Mergulhou. Sozinha naquele mar inventado ela nadava nua, como se estivesse só. Mas não estava. Molhada, acendeu outro cigarro. Sentia que a fumaça quente do tabaco queimado aquecia a angústia que sentia por dentro. Olhou para o céu e se viu subindo, com uma aura brilhosa ao redor de seu ser.

Os olhos do observador brilhavam atrás do banco de concreto. Agachado, escondido, tinha controle de toda a movimentação que ela fazia. Ela nunca esteve tão vulnerável quanto naquela madrugada, sentada sozinha em frente ao lago, olhando o brilho do céu caindo sobre sua cabeça.

Ouviu um barulho de passos mansos vindo em sua direção. Não olhou pra trás. Desorgulhosa saiu correndo em direção ao lago e mergulhou fundo.  Não conseguiu sobreviver à asfixia do mar nem mesmo por um minuto. Mas no terceiro ela ouviu um “Ei! Não foge não!”.  Ali já não podia mais responder. O ar de seus pulmões havia acabado, assim como a angústia que carregava no peito.  Há pessoas que são mesmo insuportáveis! Havia para ela. Há para nós. O homem gritou. Quando pôde vê-lo, já não era mais humana. A morte de mar havia mudado sua vida pra sempre. No lugar das pernas, uma linda calda verdeazulada.  E foi-se para fundo daquele lago-mar.

O homem que a observava nunca mais soube de seu paradeiro. De vez em quando ainda se vê um brilho no Lago à noite. Mas quase nunca se sabe se.

Contém Gritos

giphy

 

A cidade ficou deserta.
A cidade virou deserto.
Que cidade?
Esta: nebulosa e anti-carnavalesca cidade.

A cidade está deserta.
Ela que, antes de tudo, era antídoto.
Agora, virou epidemia
Capaz de negar qualquer
Influência que nasça
Do seu próprio berço.

A cidade é deserto:
Um vazio imenso dos gritos
Que saem das bocas mortas.

 

Eu não quero voltar para esta cidade cinza,
Onde as sirenes anti-cultura
É o nosso sinal de recolher.


Então recolha-se cidade!
Cidade sem festa, silenciosa, muda!
Recolha-se!

Mas não nos obrigue
A calar nossas vozes
No sinal pontual
De sua suprema silenciosidade!

A cidade é absurda e deserta.

ouriço

Começou cedinho. Aprontou a louça, o banho e o café. Correu com os afazeres antes que chegasse a hora do reencontro. Ele esperava pelo homem que lhe prometera arrancar a saudade que tinha guardado dentro da caixinha de laços azuis que ele mesmo havia enfeitado. E o homem viera. Mas no ato do possível assassinato, ele escondeu a caixa e despistou o sexo com lembrancinhas trazidas do mar. O outro, encantado com o esqueleto calcificado do ouriço, forçou um esquecimento absurdamente falso. Mas o primeiro acreditou. Também, ele se esforçava em acreditar, pois o mal que a saudade fazia, de alguma forma, o confortava. A absurdez era tanta que um fingia para o outro o esquecimento só para prolongar o encontro. O segundo só ria doce: um rio de açúcar lindo que escorria do fundo dos seus olhos. Possuía um olhar ameno e tranquilizador e, talvez por isso mesmo, o primeiro sentia uma necessidade enorme da companhia do segundo.

Entre batidas, os órgãos que ligava um ao outro gritavam de longe para que, não uma parede, mas um muro mínimo entre eles fosse quebrado, talvez rompido ou, na maior das facilidades, escalado, pulado, ou nem sequer existido. Foi preciso fechar as portas do carro para ouvir os gritos, assim como a pulsação do sexo que (desde à primeira vista tornara-se rijo) suplicava atenção. O esqueleto do ouriço não fora guardado, mas pendurado com a ajuda de uma fita, também oferecida como lembrança, no retrovisor interno do carro. Ele era a única testemunha das mãos que começavam a acariciar a barba, a boca, as sobrancelhas um do outro.

O ouriço eriçava o grosso da pele de ambos que, vigiados apenas pela rotação do esqueleto, começavam a se lamber extinguindo a existência de qualquer nojo que pudesse surgir. As línguas ousaram conhecer o mais secreto de cada um, abrindo caminhos, matas de pelos. Os pelos soltos iam ficando grudados na língua, como os espinhos macios dos pequenos cactos quando entram em contado com a pele. Diferente dos pelos dos cactos, o fundir do pelo humano na pele humana alimentava o desejo que um carregava do outro, preenchendo o vazio que ambos traziam.

A caixinha permanecia intacta. O membro rijo de um procurava espaços entre as pernas do outro para se acomodar, e batia desesperadamente na porta de entrada do universo tão íntimo do outro. A porta lentamente ia sendo aberta, molhada de suor e saliva, recebendo a visita que há muito não telefonava, escrevia cartas ou alertava sobre sua própria existência. A porta estava, agora, completamente ocupada pela ereção bem-vinda do outro. Contorcia-se de prazer, dando também prazer ao outro. Os pelos, mais que fundidos, molhados, eram elo entre o corpo de um e o corpo do outro.

De tão longe, os gritos cessaram-se com as socadas fortes de um no outro. Havia o que se abria, dando espaços para a entrada do outro (no seu corpo, na sua vida) e o que procurava caminhos para, finalmente, cumprir a sua tarefa. Da janela do apartamento eu, como uma voyeuse, olhava os corpos entrelaçados dentro daquele carro. Você vê? Víamos. Um labirinto formado por nós. A vontade era de descer, abrir a porta do carro e não dizer nada. Mas de longe gritei. As janelas estavam fechadas, e eu não me esforçava para abri-las. Muita coisa fora aberta desde que nós acordamos.

Gritei. Implorei para que o segundo não ousasse ultrapassar o limite que o ligava ao primeiro. Mas o silêncio de fora do carro, conseguia ensurdecê- los e atê-los somente ao que aconteceria dentro – do carro e da vida dos dois. Rápido, forte, violentamente os dois se enchiam, prontos para explodir. O segundo olhava agora para o primeiro com os olhos de quem quer ir além da explosão líquida do que sairia dos dois. O primeiro não entendia. E do fundo de cada um foi arrancado um pedaço daquilo que não deveria nunca ter sido mostrado. O primeiro, molhado, exausto, olha para o segundo e inicia o que poderia se tornar uma declaração de amor:

– Nasce, do branco dos meus olhos, traços nítidos do vermelho de dentro da gente. Eu perdi o tempo da espera porque eu sabia que você viria.

– Andar com o tempo atrás da gente não modifica em nada isso que a gente chama de espera.

– Toma. Mata-a.

E, do fundo de seus olhos, a saudade era vencida. Um mar corria na face dos dois, descendo pelo pescoço, rolando em direção ao peito e fundindose com o suor e o líquido viscoso que fora expulsado de dentro dos dois. Um buraco atravessava o esqueleto do ouriço que assistia tudo. Era como uma janela entre mim, você e eles. Rodando com a fitinha amarela que agora era lembrança.

Belezas

Fig04 (2).1

Fechar os olhos…
e sentir a pele macia do vento
que sopra a cara seca que chora.

Dançar o som da maré do mar
que liga a secura de dentro
com a doçura de fora, ora!

Esquecer o tempo atrás da porta do quarto,
perder as horas sem demora…

Sentir na cara a tara
do cheiro salobro que cobre
as águas turvas do Centro

-Bairro popular, vaidoso,
alegre, incerto,
coberto pela Manguaba fria:

Brilhosa lagoa incerta
Localizada no meio da medida deserta

Qualidade: Nem salgada, nem doce
Estupenda ânsia duvidosa, na certa!

Sereia

Fig01.2

Ela carregava consigo um olhar interpenetrável,
Capaz de atravessar qualquer um que ousasse cruzar a sua mira.

Possuía as belezas sobre-humanas dentro de si.

Era demasiadamente materna, marítima, mulher,
Sereia dos mangues deodorenses.

Trazia em suas veias as lamas espessas dos filhos seus,
Pois fazia questão de espalhar seu cheiro nato.

A Sereia seria suprema,
Não fosse a supremacia de carregar o intangível no nome.

Seria peixe ou mulher?
Sereia ia ser,
Lá nas pedras onde a onda se quebra no mar.

Seria?

Não sei se ria.
Talvez nas ruas, becos, vielas…
No mar não.

No mar era furacão, um azul profundo, incompreensível.

Realmente: uma Sereia.

Parto

 

Abro a porta do armário
e vejo no fundo
um pote de leite.

Me abro no fundo do armário
e me vejo funda…
No fundo de mim, um pote.

Pego no pote,
Abro o pote,

Alcanço o pacote de leite e
pego o leite do pacote.

Abro a outra porta de mim,
a que guarda o leite,
e parto.

Um parto,
Dois partos,
Três partos.

Volto ao leite:
tiro o pregador do pacote
e derramo o leite no pote.

Por favor, se importe,
que pra aborto aberto
a gente se exporta
e fica exposta
ao perigo do leite líquido
que sai das entranhas mortas.

leite de aborto
que mata a gente.

leite aquoso, sangrento
forçado e proibido
que deixa a gente, MULHER,
morta!

Fecho a porta do pote a tempo.
Enrolo o pacote de leite
e guardo o pó que sai do peito.

De súbito, fecho as portas
do fundo de mim,
portas tortas,
inexatas e
expostas.

Para um moço profundo

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para Diogo Araújo

*

Olhem pra escuridão de seus olhos castanhos:
Poço fundo e complexo;
Transparente como a gente que é preto,
Como eu sou preto,
Como meus olhos, quase
Desejavelmente coberto de cílios longos,
São pretos.

De azul acolhedor, tangível
(Assim como são azuis os meus cabelos),
Ele tem um cheiro de felicidade nata.

É daquelas pessoas que a gente olha e.
Não continua a descrição simbólica de ser,
Pois tudo é pouco para o que ele abriga eu seus corações,
Múltiplos corações.
-Assim como o multiculturalismo que ele carrega em si.

Do fundo do fundo do seu próprio poço
Ele é, energeticamente, doce.
Não há razões para não ser
Pois é tudo aquilo que não é raso.

-Como as marias-farinhas da praia do francês.