Aflita

Fig03.1
A espera
Na noite fria
Causa ânsia no amanhecer do dia.
A falta do que fazer faz arder os olhos
Mais que adjetivá-los,
Enverbecê-los:
Arder.
O claro do dia não aparece
Pra dar notícia
E a gente esquece
Que não tem sono
Que acabe com a insônia
De esperar
E só nos resta
Esperar
Acontece.

estrela do mar

Fig02.1

Acendeu dois cigarros pra não morrer de dor. Não suportava a sensação de ódio que carregava consigo. Ela estava ansiosa pelo que nunca iria acontecer. Então, sugou a fumaça dos cigarros com força a ponto de sentir a garganta gritar. Seus olhos ardiam e ela tentava segurar toda e qualquer tosse que ousasse surgir, mas não conseguia.

Os cigarros fizeram com que seus pulmões doessem. A cada tossida, uma faca rasgando o centro do peito. “Vou explodir”, pensou. Sentia a cabeça como um balão de ar sendo soprado até o ponto exato da explosão.

Tragou outra vez.

Quis sair de casa e andar ao não destino, mas já eram duas horas da manhã do outro dia e ela morre de medo do silêncio da madrugada. Desejou, mais que tudo, estar submersa. Ela queria sentir o esforço de seus pulmões lutando contra a pressão subaquática do Lago Paranoá. No fundo, queria mesmo ser um mito, uma história contada de mãe para filha, para filho.

Tinha nojo de se relacionar sexualmente com homens, porque sentia o membro rijo do outro como uma serpente áspera, venenosa e bruta. Sobretudo odiava a imagem do caralho ereto, mas tinha grande fascínio pela frouxidão melancólica do membro flácido.

Acendeu mais um cigarro. Seu quarto cheirava a flores e ervas queimadas. Sentia-se superior aos outros, mística demais para existir.

Saiu de casa sem provocar nenhum tipo de ruído e foi direto ao encontro do seu mar, que não era salgado, mas que dava uma ardência nos olhos.

Ela sempre chorava quando em frente ao mar.

Mergulhou. Sozinha naquele mar inventado ela nadava nua, como se estivesse só. Mas não estava. Molhada, acendeu outro cigarro. Sentia que a fumaça quente do tabaco queimado aquecia a angústia que sentia por dentro. Olhou para o céu e se viu subindo, com uma aura brilhosa ao redor de seu ser.

Os olhos do observador brilhavam atrás do banco de concreto. Agachado, escondido, tinha controle de toda a movimentação que ela fazia. Ela nunca esteve tão vulnerável quanto naquela madrugada, sentada sozinha em frente ao lago, olhando o brilho do céu caindo sobre sua cabeça.

Ouviu um barulho de passos mansos vindo em sua direção. Não olhou pra trás. Desorgulhosa saiu correndo em direção ao lago e mergulhou fundo.  Não conseguiu sobreviver à asfixia do mar nem mesmo por um minuto. Mas no terceiro ela ouviu um “Ei! Não foge não!”.  Ali já não podia mais responder. O ar de seus pulmões havia acabado, assim como a angústia que carregava no peito.  Há pessoas que são mesmo insuportáveis! Havia para ela. Há para nós. O homem gritou. Quando pôde vê-lo, já não era mais humana. A morte de mar havia mudado sua vida pra sempre. No lugar das pernas, uma linda calda verdeazulada.  E foi-se para fundo daquele lago-mar.

O homem que a observava nunca mais soube de seu paradeiro. De vez em quando ainda se vê um brilho no Lago à noite. Mas quase nunca se sabe se.

Contém Gritos

giphy

 

A cidade ficou deserta.
A cidade virou deserto.
Que cidade?
Esta: nebulosa e anti-carnavalesca cidade.

A cidade está deserta.
Ela que, antes de tudo, era antídoto.
Agora, virou epidemia
Capaz de negar qualquer
Influência que nasça
Do seu próprio berço.

A cidade é deserto:
Um vazio imenso dos gritos
Que saem das bocas mortas.

 

Eu não quero voltar para esta cidade cinza,
Onde as sirenes anti-cultura
É o nosso sinal de recolher.


Então recolha-se cidade!
Cidade sem festa, silenciosa, muda!
Recolha-se!

Mas não nos obrigue
A calar nossas vozes
No sinal pontual
De sua suprema silenciosidade!

A cidade é absurda e deserta.

ouriço

Começou cedinho. Aprontou a louça, o banho e o café. Correu com os afazeres antes que chegasse a hora do reencontro. Ele esperava pelo homem que lhe prometera arrancar a saudade que tinha guardado dentro da caixinha de laços azuis que ele mesmo havia enfeitado. E o homem viera. Mas no ato do possível assassinato, ele escondeu a caixa e despistou o sexo com lembrancinhas trazidas do mar. O outro, encantado com o esqueleto calcificado do ouriço, forçou um esquecimento absurdamente falso. Mas o primeiro acreditou. Também, ele se esforçava em acreditar, pois o mal que a saudade fazia, de alguma forma, o confortava. A absurdez era tanta que um fingia para o outro o esquecimento só para prolongar o encontro. O segundo só ria doce: um rio de açúcar lindo que escorria do fundo dos seus olhos. Possuía um olhar ameno e tranquilizador e, talvez por isso mesmo, o primeiro sentia uma necessidade enorme da companhia do segundo.

Entre batidas, os órgãos que ligava um ao outro gritavam de longe para que, não uma parede, mas um muro mínimo entre eles fosse quebrado, talvez rompido ou, na maior das facilidades, escalado, pulado, ou nem sequer existido. Foi preciso fechar as portas do carro para ouvir os gritos, assim como a pulsação do sexo que (desde à primeira vista tornara-se rijo) suplicava atenção. O esqueleto do ouriço não fora guardado, mas pendurado com a ajuda de uma fita, também oferecida como lembrança, no retrovisor interno do carro. Ele era a única testemunha das mãos que começavam a acariciar a barba, a boca, as sobrancelhas um do outro.

O ouriço eriçava o grosso da pele de ambos que, vigiados apenas pela rotação do esqueleto, começavam a se lamber extinguindo a existência de qualquer nojo que pudesse surgir. As línguas ousaram conhecer o mais secreto de cada um, abrindo caminhos, matas de pelos. Os pelos soltos iam ficando grudados na língua, como os espinhos macios dos pequenos cactos quando entram em contado com a pele. Diferente dos pelos dos cactos, o fundir do pelo humano na pele humana alimentava o desejo que um carregava do outro, preenchendo o vazio que ambos traziam.

A caixinha permanecia intacta. O membro rijo de um procurava espaços entre as pernas do outro para se acomodar, e batia desesperadamente na porta de entrada do universo tão íntimo do outro. A porta lentamente ia sendo aberta, molhada de suor e saliva, recebendo a visita que há muito não telefonava, escrevia cartas ou alertava sobre sua própria existência. A porta estava, agora, completamente ocupada pela ereção bem-vinda do outro. Contorcia-se de prazer, dando também prazer ao outro. Os pelos, mais que fundidos, molhados, eram elo entre o corpo de um e o corpo do outro.

De tão longe, os gritos cessaram-se com as socadas fortes de um no outro. Havia o que se abria, dando espaços para a entrada do outro (no seu corpo, na sua vida) e o que procurava caminhos para, finalmente, cumprir a sua tarefa. Da janela do apartamento eu, como uma voyeuse, olhava os corpos entrelaçados dentro daquele carro. Você vê? Víamos. Um labirinto formado por nós. A vontade era de descer, abrir a porta do carro e não dizer nada. Mas de longe gritei. As janelas estavam fechadas, e eu não me esforçava para abri-las. Muita coisa fora aberta desde que nós acordamos.

Gritei. Implorei para que o segundo não ousasse ultrapassar o limite que o ligava ao primeiro. Mas o silêncio de fora do carro, conseguia ensurdecê- los e atê-los somente ao que aconteceria dentro – do carro e da vida dos dois. Rápido, forte, violentamente os dois se enchiam, prontos para explodir. O segundo olhava agora para o primeiro com os olhos de quem quer ir além da explosão líquida do que sairia dos dois. O primeiro não entendia. E do fundo de cada um foi arrancado um pedaço daquilo que não deveria nunca ter sido mostrado. O primeiro, molhado, exausto, olha para o segundo e inicia o que poderia se tornar uma declaração de amor:

– Nasce, do branco dos meus olhos, traços nítidos do vermelho de dentro da gente. Eu perdi o tempo da espera porque eu sabia que você viria.

– Andar com o tempo atrás da gente não modifica em nada isso que a gente chama de espera.

– Toma. Mata-a.

E, do fundo de seus olhos, a saudade era vencida. Um mar corria na face dos dois, descendo pelo pescoço, rolando em direção ao peito e fundindose com o suor e o líquido viscoso que fora expulsado de dentro dos dois. Um buraco atravessava o esqueleto do ouriço que assistia tudo. Era como uma janela entre mim, você e eles. Rodando com a fitinha amarela que agora era lembrança.

Belezas

Fig04 (2).1

Fechar os olhos…
e sentir a pele macia do vento
que sopra a cara seca que chora.

Dançar o som da maré do mar
que liga a secura de dentro
com a doçura de fora, ora!

Esquecer o tempo atrás da porta do quarto,
perder as horas sem demora…

Sentir na cara a tara
do cheiro salobro que cobre
as águas turvas do Centro

-Bairro popular, vaidoso,
alegre, incerto,
coberto pela Manguaba fria:

Brilhosa lagoa incerta
Localizada no meio da medida deserta

Qualidade: Nem salgada, nem doce
Estupenda ânsia duvidosa, na certa!

Sereia

Fig01.2

Ela carregava consigo um olhar interpenetrável,
Capaz de atravessar qualquer um que ousasse cruzar a sua mira.

Possuía as belezas sobre-humanas dentro de si.

Era demasiadamente materna, marítima, mulher,
Sereia dos mangues deodorenses.

Trazia em suas veias as lamas espessas dos filhos seus,
Pois fazia questão de espalhar seu cheiro nato.

A Sereia seria suprema,
Não fosse a supremacia de carregar o intangível no nome.

Seria peixe ou mulher?
Sereia ia ser,
Lá nas pedras onde a onda se quebra no mar.

Seria?

Não sei se ria.
Talvez nas ruas, becos, vielas…
No mar não.

No mar era furacão, um azul profundo, incompreensível.

Realmente: uma Sereia.

Para o mar mais tangível de dentro de mim

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Desculpe, é que nestes dias têm sido torturante não estar perto daquilo que se quer. Você me confunde, diz que tudo vai ficar bem, que a gente vai dar um jeito, mas eu sei que não tem jeito, que as coisas sempre pioram e que a gente vai tapando os buracos da nossa vida com algum colorido que a gente inventa, porque encontrar colorido está cada vez mais difícil.

Tenho andado desbotada nesses dias, nestes dias. Um pouco por saudade, um pouco por medo, um pouco por covardia de chegar no limite de tudo, na morte. Tenho me sentido cada vez mais uma dessas pessoas acinzentadas e frustradas que só pensam em morrer quando tudo que a gente quer ultrapassa este euvocênós que nos ensinam a cultivar. É dum sumir pras coisas pessoas ambientes que eu falo.

Eu esperei que houvesse um mar, mesmo que miúdo, dentro de ti. Me diz: por que é que a gente tem essa mania de esperar?

Você me desculpe, é que sinto cada vez mais que estou remando contra a maré. O pior de tudo é que estou remando demais e este barco aqui não se mexe. As ondas que se chocam contra o meu barco estão cada vez mais fortes e eu não sei se ele vai durar muito tempo. Me entende? Eu quero dizer que daqui a pouco ele pode estar todo despedaçado e eu aqui, no meio do mar, procurando um suporte pra voltar ao chão sólido que a gente um dia criou;

Estou cansando.

A gente demora pra perceber o quanto cheia a gente fica quando acumula sentimentos que só servem para gravar num pedaço de papel. É desnecessário estar passando por isso, ter que te dizer isso assim desse jeito.

E você aí: olhar inútil pras dores alheias. Amadora, sem a qualidade do amar, de iniciante, de alguém qualquer que se joga no mundo como se gente fosse descartável. Não é assim, ninguém é descartável, eu não sou, você não é.

Você tem mania de ler as coisas pela metade, e só por isso me arrisco em dizer que você não cuida do que as pessoas têm te oferecido, você esquece do bem que faz pra elas e some no mundo, se isola no seu mundo, mesmo sabendo que a gente está no instantepresenteagora aqui pra te ajudar a encarar as coisas com um olhar bom, sabendo até que tudo está caindo num poço infindável, e que a gente tá dentro desse tudo.

Eu quero dizer que eu preciso da sua ajuda, que sozinha eu não consigo e eu estou sozinha agora, por isso tenho medo. Estar sozinha me assusta, pensar sozinha é ter medo de cair, de ser fraca e de fugir. E eu não quero fugir desse espaço vazio que você criou, que a gente criou.

uma mulher morta de mar

mar

De olhares curtos viviam os habitantes daquela cidade cinza à espera de que algo diferente da monotonia de viver acontecesse antes da própria realização da morte.

O desespero da passagem do tempo era esperado com seus olhares semicerrados, imóveis, incomunicáveis.

Ela, mulher de olhos sorridentes, aparentava ausentar-se da ausência de sua própria monotonia, tumultuando-se em devaneios verdeazulcristalinos.

-Eu quero ser mar!

Ela dizia e seria, desde o instante de sua procura pela completude inútil de ser água: onda salgada que banha as areias desérticas da solidão coletiva dos moradores daquela cidade.

-Mar! Se eu sêsse o sal dessa cidade cinza, eu subiria nas casas e ruas e becos, seria a morte de mar dos outros, e dos outros dos outros, até dos outros que sou eu mesma e me morreria azul e salgada.

E foi-se! Acertou na profecia de suas palavras. Ela era, agora, aquele cheiro salgado de maresia preenchendo o pôr-do-sol nas tardes crescidas de solidão. Ausentou-se do humano que havia em si para ser a morte do mar dos seus. E foi-se!

-Há uma mulher morta na praia! – Gritou alguém.

A multidão agora se exaltava em gritos e afirmações, algo como coisas do tipo:

-Uma mulher morta! Uma mulher morta!

-Alguém ajuda!

-Ajudem! Ajudem!

Era estranho aquele corpo perdido na beiramar. Era estranho a correria da cidade mórbida. O não estranho foi a preocupação com a aparição de uma mulher de olhos que sorriam, mesmo fechados, suspensa na solidão beiramar que a cercava.

De súbito, o corpo se mexeu. Os gritos e falas e choros cessaram-se. De sua boca saiu uma voz que dizia:

-Eu realmente não esperava que vocês fossem me encontrar, ou que eu fosse encontrá-los, não sei: alguém encontrou. Parecia que tinha alguma coisa dizendo que a gente tinha que vir pelo caminho que a gente veio, que a gente tinha que se encontrar, até porque eu esperava por vocês desde a ausência da minha própria espera. E agora, quando eu não esperava por esperá-los, porque eu supunha que vocês viriam, vocês vieram.

há mares que vêm para o bem

Ela olhava para cima e via algumas raízes aéreas sustentando a beleza azul do meio de setembro. E aí batia aquela esperança de que a vida iria florir. Como quando a gente passa a vida inteira regando uma planta e tudo parece tão sem graça e murcho e cinza que você só pensa na inutilidade de continuar regando todos os dias a mesma planta. Até que você esquece de regar e corre preocupada com a sede da planta, pensando na própria inutilidade por não saber cuidar de nada. Aí você vê que há amores que são capazes de resistir até os mais absurdos descuidos.

É que neste tempo de seca, a gente não enxerga umidade no amor, só garganta sedenta: rouquidão que engana a gente com um arranhado que sai do meio do nó que a gente tem na garganta. E haja esperança de que um dia você vai ficar bem. Isso de viver na ausência da onda do mar que te sufoca também machuca. E a machucava demais. Mais até do que a prisão que era estar na imensidão daquele mar gigante: poesia miúda perdida no horizonte.

No meio da rua ela olhava para os lados para certificar-se de que estava só. E, uma vez certa da solidão absoluta naquele deserto, ela abria a boca atirando palavras: verbos, substantivos, adjetivos… marcando para sempre a rouquidão do seu universo. Coisas como: – O mar raso do meu amor não morreu na seca deste lugar confuso. O mar morto da minha dor resiste a verões, outonos e invernos na esperança de ser acalentado com o colorido dos ipês de setembro. O mar denso desta minha sede de saudade da umidade desta palavra que é amor resiste à ausência das cores para regar o lugar da esperança.

E todas essas experiências, nela, eram mares. Mares que nem sempre refrescavam a sua pele tostada. É que às vezes a gente esquece – e ela tinha uma mania absurda de esquecer – que há mares que vêm para o bem, para enriquecer a vivência da ausência, para criar saudade. Há mares que matam outros mares, mas que a gente insiste em continuar nadando. Esses mares, que têm fim, são os da desesperança, porque a esperança existe para alcançar a imensidão dos mares de si em si e nos outros. E quando a gente se descobre sujeito finito, se perde a graça de vivenciar as marés do caos recôndito do fundo da existência da gente. E a gente a se afoga.